No Deserto de Atacama, enormes montanhas de roupa descartada estendem-se pela paisagem em pilhas tão grandes que podem ser vistas do espaço. Os resíduos têxteis mal geridos são um dos desafios ambientais que mais crescem na nossa época, impulsionados pela sobreprodução, pelos materiais sintéticos e pela falta de um design circular.
Mas, para além do que conseguimos ver, existe um problema mais invisível e, possivelmente, mais insidioso: a libertação de plástico dos têxteis.

A Trilha Oculta: A Pegada de Microplásticos da Moda
Um estudo da Cotton Incorporated estima que a indústria global do vestuário é responsável por 14% do total de plástico que acaba no ambiente — cerca de 8,3 milhões de toneladas métricas por ano. Para teres uma ideia, isso equivale, mais ou menos, ao peso de mais de 800 Torres de Eiffel.
As fibras sintéticas, como o poliéster, o nylon e o acrílico, contribuem para isso. Sempre que estes materiais são usados, lavados ou deitados fora, libertam pequenos fragmentos conhecidos como microplásticos ou microfibras sintéticas.
Estas fibras podem entrar nos cursos de água através das máquinas de lavar roupa, seguir pelos rios até aos oceanos, ser transportadas pelo ar e depositar-se no solo, nos alimentos e até nos nossos corpos. Como muitos de nós já sabemos, foram detetados microplásticos em todo o lado — desde as fossas oceânicas profundas até à corrente sanguínea humana.
E quanto às fibras naturais, como o algodão?
O algodão também liberta microfibras, mas há uma diferença fundamental: o algodão é biodegradável.
O que significa, afinal, «biodegradável»? Não sei
Um material é considerado biodegradável se puder ser decomposto por microrganismos, como bactérias e fungos, em elementos naturais como água, dióxido de carbono e biomassa, sem deixar resíduos nocivos.
Ao contrário das fibras sintéticas, que podem durar centenas de anos, as fibras de algodão fazem parte de um ciclo biológico natural.
De volta à Terra: como é que o algodão se decompõe
Estudos científicos demonstraram que o algodão pode biodegradar-se relativamente depressa nas condições certas. Na verdade, um estudo revelou que o tecido de algodão se degradou mais depressa do que uma folha de carvalho num ambiente aquático.
Prazos típicos de biodegradação do algodão não tratado:
- Ambientes do solo: semanas a meses
- Ambientes marinhos: meses (dependendo das condições)
Compara isso com as fibras sintéticas, que podem persistir durante décadas ou até séculos, fragmentando-se em microplásticos cada vez mais pequenos ao longo do tempo.

Fonte do estudo e da imagem: https://cottonworks.com/cotton-sustainability/biodegradability-of-cotton/
Mas nem todo o algodão é igual
É aqui que as coisas ficam mais complicadas. A capacidade do algodão de se biodegradar depende muito dos acabamentos químicos (resistência às rugas, repelentes de água), dos corantes e tratamentos, e das misturas com fibras sintéticas.
Isto pode atrasar significativamente, ou até impedir, a decomposição natural.
Uma investigação recente de Cary Sommers, intitulada «Fibras “naturais” nos lagos: uma perspetiva sedimentar de 150 anos sobre a persistência», destaca este desafio. O seu trabalho mais recente aponta para os principais obstáculos à biodegradação das fibras naturais, especialmente ligados ao processamento têxtil moderno. Até mesmo as fibras vegetais e animais mais simples podem perder a capacidade de regressar à terra de forma segura se forem tratadas com produtos químicos persistentes ou tóxicos.
A origem da fibra é importante, mas tudo o que acontece depois da colheita também é.

Desenhar a pensar na devolução, não só na utilização
Se queremos que os têxteis voltem mesmo para a terra, temos de ter em conta não só o material, mas todo o sistema que o rodeia. Isto significa que:
- Escolher fibras naturais e renováveis
- Utilizar produtos químicos seguros e de baixo impacto
- Evitar misturas sintéticas desnecessárias
- Pensar no fim da vida útil desde o início
Na Organic Cotton Colours, esta filosofia está presente em todas as etapas do processo.
- Algodão cultivado de forma biológica, sem pesticidas tóxicos
- Variedades cultivadas com cores naturais, o que elimina a necessidade de corantes sintéticos
- Minimamente processado, preservando a integridade natural da fibra
O resultado? Materiais que não só são bonitos e funcionais, como também conseguem regressar ao solo de forma segura.
Um final diferente para as nossas roupas
A questão já não é só «de que são feitas as nossas roupas?», mas sim: «no que é que elas se transformam depois de já não as usarmos?»
Num mundo sobrecarregado por resíduos têxteis e poluição por microplásticos, a transição para o design circular é necessária.
A verdadeira moda regenerativa começa e acaba no solo.
